Quando se trata de amor, é mais fácil ceder do que
protestar. É mais fácil, porque inicialmente, soa-nos mais apelativo,
convidativo a receber uma carícia do que um estalo. É-nos mais agradável uma
palavra doce do que um puxão de orelhas. E nesse momento de facilidade, – quando
o amor nos aparece, nos fala – estamos cegos. Mas é uma cegueira benigna,
inicialmente. Deixa-nos a suspirar pelos cantos, deixa-nos a sussurrar o nome
do amado, deixa-nos a sonhar acordados. Ou seja, um bálsamo para a alma. Porque
no momento em que o amor surge, aparece também uma solidão – que anteriormente
não a notamos. E ansiamos matá-la, extingui-la. E esse assassinato só é
possível com o amor. Mas como anteriormente referi, estamos cegos. E os beijos
começam a ser substituídos por dor, e os abraços por ignorância. Então, depois
de vivermos este momento doce – que nos atiçou o apetite – valerá a pena
suportar a fome? Porque esta refeição é
curta, é momentânea… mas simultaneamente, tão saborosa, tão aprazível. E chega
o momento em que exigimos repetir a dose. Mas, estará a pessoa amada disposta a
repeti-la? Oh, pudemos sempre tentar, não é verdade? E então, o outro decide doar
outro prato, nós provamos, e inocentemente ficamos dependentes. E a partir desse
momento, o outro sabe como seduzir-nos, como nos fazer cair. E aí está a
resolução inicial: quando se trata de amor, é mais fácil ceder do que protestar.
Porque no fim, nunca estaremos satisfeitos.
Biografia
- Sara Almeida
- Natural de Neuchâtel, Suíça. Actualmente, vivo em Coimbra, Portugal.
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