Umas palavras doces e um sorriso torto são a solução. “Não falha”, pensam eles. “Este é diferente…”, pensam as mulheres ingénuas. Somente uma troca de olhares, e o feitiço está lançado. Inicialmente, um abraço ou um beijo na testa, são carícias meramente platónicas. Mais tarde, vem o primeiro beijo. Depois, uma ânsia desconhecida apodera-se do corpo, e o contacto com o outro torna-se pouco; ansiando, esperando, querendo mais, muito mais.
Após uma reflexão, e um suspiro concluído com um: “Eu amo-o”, fazem-nas entregar-se de corpo e alma ao ser que lhes predomina na alma, no coração e na mente. 
Fiando-se que o sentimento é recíproco, atiram-se de cabeça. Entregam-lhes o seu coração, a sua alma e a sua virtude.
Os cavalheiros, que aparentam estar apaixonados, “amam-nas” duma forma arrebatadora. Pele com pele, lábios com lábios, olhos com olhos. Coração com coração – pensam elas. E sentem elas.
Mas eles já sabem a cantiga de cor e salteado, e no momento oportuno, no derradeiro momento da verdade, da entrega, fingem estar apaixonados irrevogavelmente. Citam umas palavras doces, e aproximam-se do corpo da “amada”… meticulosamente, estudam os seus passos e a reacção da presa. Porque eles são uns autênticos predadores, basta olhar-lhes nos olhos. As mulheres é que se deixam levar pelo amor, e têm os olhos turbos pela luxúria, pelo amor e pela ansiedade. Ao chegarem à presa, colocam o seu corpo colado ao desta, e acariciam a sua face e dizem-lhes olhos nos olhos, o quanto as amam, o quanto as desejam, o quanto são belas. Tudo mentiras. Porque esses seres desprezíveis – que são os homens – parecem herdar os cortejos falsos, a capacidade de enganar e mentir, e a ousadia dos seus antepassados, que também foram uns “quebra corações” e aproveitaram-se da sua virilidade, da sua beleza e do seu charme para seduzirem mulheres e raparigas inocentes para as suas camas.
Lentamente, elas deixam-se cair nos seus encantos, e o seu raciocínio deixa de funcionar, porque os lábios do amado estão em contacto com os seus, e vagarosamente, a pele é exposta ao ar e aos olhos do companheiro.
Após a virtude ser rompida, o nome do amado saí-lhe dos lábios inchados – devido aos beijos mais agressivos – como uma mantra.
Quando o “amor” é consumado – é tal e qual como elas imaginam – pele com pele, lábios com lábios, olhos com olhos, coração com coração. Mas não sabem elas, que aquele momento é a sua desgraça, é o momento em que doam o seu coração e a sua alma, para lhes ser devolvida denegrida, torpe.
Após o ápice, o homem liberta-a dos seus braços másculos, e deita-se na cama para o outro lado, como se não suportar-se olhá-la uma vez mais, e adormece. 
A mulher – que acreditava que depois de se entregar ao amado, este iria abraçá-la e juntos adormeceriam, para mais tarde reiniciarem a sua dança amorosa – encara o tecto e revive os momentos tórridos que à pouco tempo viveu. E questiona-se o porquê daquela reacção do companheiro. Poderá ter sido ela o problema? Que poderá fazer ela para recompensar o seu querido? Após umas longas horas de reflexão, as pálpebras cansam-se, e acaba por adormecer.
Mais tarde, acorda com um movimento estranho na cama. Repara que o seu companheiro se levantou e começou a apanhar as suas roupas caídas pelo chão do quarto – porque, horas antes, a ânsia, o desejo era tanto que o sítio onde as roupas foram postas era insignificante. E começa a vestir-se. Surpreendida, decide que é o momento oportuno para se levantar e declarar, uma vez mais, o seu amor. 
Enrola-se no lençol que outrora foi o único cúmplice daquela união, e aproxima-se do homem, que este ignora, continuando a vestir-se. Ela estranha a sua atitude, mas pensa que talvez seja impressão sua de que algo não esteja bem, e começa a recitar-lhe palavras doces e melosas. O homem – como todos eles são, impacientes e rudes – manda-a calar e diz-lhe que foi um caso duma só noite. As lágrimas ameaçam-lhe os olhos, mas ela julga ter ouvido mal. Mas não... esses seres desprezíveis quando dizem algo, é sempre literal. 
Vestido, dirige-se à porta, e nem um olhar retorna à mulher, e esta persegue-o pedindo que reflicta sobre o que pensa fazer. Este repete-lhe que aquilo foi insignificante, que foi uma aventura, e ela, desolada, deixa-se cair no chão, que outrora esteve cheio das suas roupas e das dele. Quando a porta se fecha, é nesse momento, que ouve o seu coração despedaçar-se e a realidade vir ao de cima. 
Foi usada. Foi usada por um ser desprezível que somente a quis para um momento de satisfação momentânea. Agora, as lágrimas saem livres. Roga-lhe milésimas pragas, deseja-lhe a morte e arrepende-se do sucedido. Mas sabe, que apesar de conhecer – agora – a sua natureza, se ele regressasse e a seduzisse para outro momento de paixão, ela aceitaria de olhos fechados, porque ele é o homem da sua vida, é o homem que ama, e é o homem a quem entregou a sua virtude.
E são homens como estes que desgraçam as mulheres ingénuas, que se deixam levar pelas novas emoções, pelas descobertas. 

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Natural de Neuchâtel, Suíça. Actualmente, vivo em Coimbra, Portugal.

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