O ar da noite enfadava o quarto – com um leve odor de eucalipto queimado, provavelmente devido aos incêndios perto daquela região. Aquele quarto simples, com todas as paredes pintadas de branco, uma mobília de mogno: duas mesinhas de cabeceira, um roupeiro, uma cómoda, e por cima da mesma, um espelho redondo e uma cama de casal que anteriormente, lhe pareciam tão familiares, e naquele momento não lhe transmitiam a tão conhecida familiaridade. Não eram os móveis, nem o quarto que faziam com que o ambiente se torna-se agradável. Era a própria pessoa em falta, a pessoa que preenchia o outro lado da mesma cama, na qual ela estava deitada. Devido à falta da sua presença, aproximou-se lentamente do lado vazio da cama… avançava centímetro a centímetro, vagarosamente, na esperança de a qualquer momento colidir com o corpo másculo e quente, que antes a abraçava todas as noites. Infelizmente o lado oposto  – outrora ocupado  – estava vazio, frio e imaculado. Moveu a cabeça da sua almofada, ocupando a outra, e imediatamente o perfume do seu companheiro foi sentido. Espontaneamente, ajustou-se melhor na cama e colocou a cabeça para baixo  – o nariz em contacto com o algodão da forra da almofada  – sentindo mais profundamente o seu cheiro, e instantaneamente lágrimas invadiram os seus olhos, molhando-a, e se fosse possível, intensificando o cheiro. Chorou até que os seus olhos não conseguissem libertar mais água, esperneou até desmanchar os cobertores e os lençóis, pediu socorro até a voz ceder – pediu socorro daquela agonia, daquele abandono que se apoderava cada vez mais dela. Calou-se. Os soluços cessaram, a voz perdeu-se e as lágrimas terminaram. A agonia persistia – agora em silêncio. Como a noite. Silenciosa, mas pungente. Fechou os olhos e desistiu. Deixou-se ser invadida por aquele sofrimento, e ser levada para a inconsciência. Finalmente, adormeceu. Não foi um sono descansado, pelo contrário, sonhou que tinha a seu lado o seu amor. O seu coração voltou a ganhar vida, o seu batimento cardíaco tornou-se irregular; fazendo-a acordar. Ao acordar, relembrou-se da agonia e da cama vazia. Novamente, uma sessão de gritos foi pronunciada, mas uma mão calejada e quente, e junto duma voz doce terminaram o tormento:
  – Shiuuuu… Estou aqui, estou aqui.  – Abraçando-a disse. 
A jovem ainda atordoada – pelo sono ou pelo espanto – levantou-se num ápice, ficando sentada na cama, e defensivamente puxou todo seu cabelo para frente tapando o rosto, colocou os joelhos juntos ao peito e com as mãos tapou os seus ouvidos. E cantarolava, mexendo-se suavemente para a frente e para trás:
 
 –  Estou a sonhar… estou a sonhar…
Ele vendo-a tão frágil, em tanta agonia, soltou um pranto. As lágrimas alcançaram-lhe o rosto e, reflexivamente agarrou-se à mulher da sua vida, e suavemente tirou-lhe ambas mãos,  – que antes tapavam os seus ouvidos  – e sussurrou-lhe delicadamente: 
  –  Olha para mim. Não estás a sonhar, meu amor. 
Ela impressionada pelo seu sonho conseguir reproduzir o seu tom de voz tão correctamente, arriscou em virar o rosto e olhar para a direcção de onde vinha a voz e os braços que a circundavam.
 
 –  Oh meu Deus! Como é possível? É tão real…  – E ao mesmo tempo, afagava-lhe o rosto, maravilhada com a beleza do seu amor. 
Ele sentindo a necessidade de tocá-la, senti-la perto de si, colocou as suas mãos por cima das da dela no seu rosto, e olho-lhe nos olhos húmidos:
 
 –  Sou eu… olha para mim, não vês? Estou aqui. Perdoa-me por não ter chegado mais cedo. 
  –  És mesmo tu?  – Disse ela com uma voz receosa, pensando que quando falasse a miragem do seu amor desaparecesse. 
  –  Sou…  – Retrocedeu, seguido duma risada seca. 
Num ápice, ela agarrou-se a ele, como se a sua vida dependesse disso, e espontaneamente ambos deitaram-se. Deitou-se no seu torso, sentido o seu perfume mais carregado, e ele afagou-lhe os cabelos e cantarolava uma música relaxante, exalando felicidade. 

Amor… O amor. Uma palavra e infinitas definições. Tantos conceitos, metáforas. Não me recordo, é de terem associado o amor à dor. Não é paixão, é amor – ou agora passaram a ser sinónimos, e ninguém me disse nada? Olha que traste, esse tal amor! Agora mudou de características… Optou por algo mais dinâmico e sádico. E hoje estou num daqueles dias melancólicos, logo tenho uma visão mais triste, e os meus sentimentos tornam-se negativos. Perfeito para caracterizar este magnífico sentimento. Este sentimento que corrói pelas entranhas do meu ser, tal e qual um reumatismo. Como um som ensurdecedor que irrita o meu tímpano, tal e qual o zumbido dum insecto. Ou cortante e doloroso como uma faca, deixando que o meu sangue goteje pela minha epiderme. Ou associe – mais correctamente, talvez – ao fogo. No início, um calor confortável, acolhedor e no fim um mal-estar abrasador, uma ardência desconfortável, pungente. Não é assim toda a glória do amor? O primeiro, o segundo… o último. Um sentimento perigoso, e envolve pessoas e mentalidades fracas, de fácil influência. O amor não passa duma influência, dum mal-estar disfarçado, duma mentira. Que se lixe o amor, e o resto. O amor não passa dum capricho, duma ilusão. Que venha o desejo, o prazer, a luxúria, a ganância, o egoísmo. Então… todo o ser humano é instintivo. Que venha a animalidade. Que venha o hedonismo! 

Poderia caracterizar-me com inúmeras palavras, detalhadamente, mas opto pelo essencial. Sempre pelo essencial. Afinal de contas, qual seria a piada, se antes de te apresentares, já saberes todos os pormenores da minha vida? Por isso, aqui vai o essencial: não me considero uma rapariga “normal”. Não me enquadro nesse “grupo”. Porquê? Porque não gosto das mesmas coisas, nem penso da mesma forma que a maioria das raparigas. Sim, sou uma peça fora do jogo. Que irónico! Gosto de ler. Gosto de escrever e de dormir. Muito, muito. Sou uma pessoa bastante caseira. Queres proporcionar-me um momento romântico? Liga a lareira, e estende-te comigo no sofá, enquanto observamos as labaredas arderem. Adoro o Inverno. Frio, chuva e neve. Gosto muito de camisolas de lã. Chá quente, de maçã e canela. Café. Não uso, nem gosto de maquilhagem. Odeio fazer compras. Excepcionalmente livros e relógios. Um dos meus sonhos é ter uma grande biblioteca em minha casa, daqui a uns anos. Os sons mais magníficos no mundo para mim, é o dedilhar dum piano, e o batimento cardíaco da pessoa amada. Sou bastante sentimentalista, apesar de não o demonstrar. Considero-me romântica. Teimosa, muito teimosa. Determinada. Defendo com unhas e dentes as minhas opiniões e os meus princípios. Sou uma mulher de palavra. Sou inteligente. Gosto de reflectir e de aprender. Gosto de conversar sobre experiências passadas, livros lidos ou até mesmo política. Interessa-me bastante. Justa. Provavelmente a minha maior qualidade, e a que mais aprecio no mundo. Sincera. Muito mesmo. Digo o que penso, e não tenho receio de ouvir opiniões controversas. Verdadeira. Sarcástica. Muito mesmo. Adoro castanho e azul. Odeio praia. A minha peça de roupa predilecta é as calças de ganga: porque são práticas e combinam com absolutamente tudo. Uma boa distracção nos tempos livres será um romance nas mãos, e embrulhada nos cobertores da minha humilde cama. Gosto bastante de cinema. Mas prefiro a literatura e a música. Um dia, gostava de escrever um livro. Gosto de música clássica. Quanto aos meus atributos físicos, lamento desiludir-te mas não sou nada chamativa. Sou discreta – aliás gosto de coisas discretas –, e não correspondo, sem margem de dúvida, a essa tal ideologia perfeccionista de como a mulher deve realmente ser. Gosto do diferente, aliás. Mas adoro a monotonia, o quotidiano. Apesar de em mim, esse “diferente” não seja positivo. E realmente não me interessa o número de bíceps que possuís.  Notarei mais rapidamente o teu grau de inteligência, maturidade e o teu lado mais amoroso. Sou frágil, apesar de não parecer. Gosto de dar aquele ar de mulher inquebrável. Infelizmente, sou quebradiça demais. Sou trapalhona. E desastrada. Valorizo imenso o amor. Aliás, acho que o verdadeiro significado da vida é amar e ser amado. Idealizo um amor incondicional, arrebatador, eterno. Preciso de alguém que me respeite e me ame, acima de tudo. Pelo que sou. Tenho oscilações – frequentes e constantes – de humor. Irrito-me facilmente. O essencial está aqui. Desejo-te boa sorte, – porque irás realmente precisar – e espero que realmente me ames e respeites pelo que sou. Tenho bastante orgulho do que sou, apesar de ter inúmeros defeitos. Espero aperfeiçoá-los contigo. 

Biografia

A minha foto
Natural de Neuchâtel, Suíça. Actualmente, vivo em Coimbra, Portugal.

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